. jornada do patrimônio 2016 . narrativas líquidas do SESC Pompéia .


Esse é um projeto sobre o Patrimônio Imaterial dos lugares de encontro.

Quem primeiro gostou dele foram as meninas do Turismo Social do SESC - Silvia, Leila, Flávia e Carol. Agradecemos de coração. Agradecemos também a equipe do Pompéia, gente muito especial.

Escutamos histórias de vida de pessoas que circulam pelo SESC Pompéia, transcrevemos essas histórias, sonhamos com elas e depois montamos um percurso poético com o intuito de trazer à tona essa rede de memórias vivas que constituem o tecido simbólico desse espaço.

Nomeamos como "narrativas líquidas" as histórias residuais vividas e/ou imaginadas que povoam um determinado espaço de uso coletivo. Liquidas porque são um bem simbólico, maleável, fluido que toma o formato da voz de quem as conta. E disso depende as histórias que povoam o campo imaginário dos espaços públicos: que alguém as conte para que o manancial de fantasia e vida simbólica nunca pare de jorrar.

O coletivo As Rutes foi fundado em 2007 com o firme propósito de trabalhar a potência poética dos encontros e das histórias de vida. Nesse projeto, lembramos desse lugar de onde partimos com a ajuda valorosa da especialista em histórias de vida Sandra Lessa. É muito bom quando uma parceira te ajuda a lembrar e a fabular algo tão importante do seu percurso. Sandra é mestra nessa arte.

Encontrar. Viver. Lembrar. Fazer transposição poética.

Abaixo, um primoroso relato da Sandra sobre a experiência vivida:

Um farol para orientar náufragos

Matéria feita de concreto e de tijolos. Aqui é impossível esconder a presença da solidão da velha Fábrica. Longe das imensidões de um mar ou do horizonte de um rio, é possível encontrar as coisas asiladas durante anos numa fria alvenaria. E mesmo que esse espaço seja renovado e se faça aqui o carnaval, ainda assim habitará os opostos entre o inacabado e o preenchido.
E nesse épico espaço da grande cidade paulista, um rio corre por baixo. O Água Preta, mesmo sendo esquecido pelo cinza-concreto, nunca deixou de passar pelas ruas que ladeiam o Sesc Pompéia nem um dia sequer. O rio na sua sina de água fluída não abandonou sua resistência e jamais deixou de correr.
 Fomos no espaço-cinza investigar os antigos afetos que circulam em cima deste rio. E navegamos guerreiros contra Lethé, o denso rio do esquecimento. Sabe-se que quem beber de sua água ou, até mesmo, tocá-la experimentará o completo esquecimento. E nessa trajetória é que trafegamos teimosos, colocando sutilmente pequenas velas acesas na sua superfície e assim, convocamos lembranças vividas de antigos navegantes. Também fomos demorados, sem pressa de viver. Buscamos detalhes, algum souvenir que enobreça a alma. Lembrar-se, do francês se-souvenir, é deixar vir à tona o que estava submerso ou esquecido.
Aos navegantes que ali encontramos esclarecemos, as lembranças que guiam nossas velas-marinheiras podem ser vividas ou inventadas. Na verdade, tanto faz, pois se foi vivida pode ser inventada e ser for inventada, foi vivida. É verdade, a ficção não existe. Algum equivocado deu nome à ficção.  O que existe, na verdade, são infinitas possibilidades de inventar o que chamamos de real. Ou seja, só existe poesia.  
Uma vez esclarecida a viagem, na travessia do encontro não foi necessário esperar muito para que a vela acesa evocasse as primeiras memórias apagadas.  “O que você quer saber sobre o passado moça? Não dá para ter medo das coisas antigas. Tudo que tem recordação é validado no tempo. Eu, Hélio mais de 80 anos, já vi tudo acontecer, sou um lapiano de nascimento. Hoje eu olho para minha esposa e rezo por ela. Sabe onde ela está? No porta-retratos, e eu olho para ela e rezo por ela todos os dias, e ela olha para mim e reza por mim todos os dias”.  
Vela. Fogo.
Veio ao nosso encontro e me pulou da boca “ Como você está linda! ” E Elza desaguou à vontade as gotas de um rio encanado.  “Convenci o maquinista que meu sonho era dirigir um trem. E como já era velha, não teria muita oportunidade de realizar meu sonho. Acho que ele ficou com dó, e foi assim que levei minha turma da ‘melhor idade’ numa excursão no Playcenter para passear na Maria-Fumaça”.
Fogo. Vela.
Para estarmos juntos, lado a lado acendendo velas e fazendo a travessia em segurança, surge o acolhimento, que nos chega em forma de aconselhamento, é como um reflexo na água das experiências vividas através do tempo, ou, a criteriosa sabedoria popular. Os conselhos vêm no fundo das palavras carregadas em um tom misterioso:
“Se um homem vier com valentia para cima de você, você deve ser valente e meia”.
Vela.
“Se você encontrar alguém que o amor é tudo, você está a ponto de fazer família”.
Acesa.
“Toda mulher que quiser saber o que um homem procura, é só se concentrar e olhar bem no fundo da menina dos olhos dele, ai ela, a menina dos olhos, revela a verdadeira intenção. Isso chama-se intuição”.
Chama.
 “Você sabe a verdadeira diferença entre uma mulher e um homem? É que a cabeça do homem é por onde ele passa, é onde ele vive. Já a cabeça da mulher é o mundo”.
Vela.
 “Eu não sou velha, o velho está dentro de nós, sabe o que eu sou? Eu sou um par de asas ”.
E se uma vela acesa na superfície do Lethé servir como farol para orientar naufragas lembranças, o que vier à tona iremos contar. É que as notícias devem ser espalhadas de boca em boca para serem conservadas em vida. Acendedores de velas, nós seguimos o conselho de Lourdes que cruzou nosso caminho na calçada do Sesc e recomendou:
“Divulguem as boas notícias por ai, gritem, contem e espalhem aos ventos”.

Sandra Lessa
Em agradecimento ao trabalho com Cristiana Ceschi e o coletivo As Rutes

Recolhimento de histórias de vida no Sesc Pompéia junho/agosto de 2016













































participaram da ação: Cristiana Ceschi, Cristiano Meirelles, Fabio Rosa e Sandra Lessa.

foto: Tatiana Barreto.

Agradecimento: Fernando Almeida, Fernando Antônio e Patrick.

Agradecimento especial a todos os depoentes que participaram desse projeto.

. ocupação SESC Campinas . Espelhos do Invisível .



Sarau Das Rutes
O que seria do mundo sem o socorro das coisas que não existem? (Paul Valery)

Em Julho de 2016 ocupamos o SESC Campinas com ações que trouxessem à tona o INVISÍVEL.

Nossa missão foi criar propostas perceptivas - dispositivos de escuta e de encontro -  para que o invisível florescesse de maneira singular, delicada e espantosa em cada pessoa que, curiosa, se aproximasse da gente.

Portais, brechas, vales de silêncio que levavam a possibilidades.

Ajudar a ver, ensinar a olhar, tirar excessos, fazer silêncio e abrir espaço para o que pede para ser visto.

Reconhecer o invisível.

Duas histórias:

O CONTRABANDO DE NASRUDIN
Nasrudin costumava atravessar a fronteira entre a Pérsia e a Grécia montado em um burro. Sempre levava dois cestos e voltava sem eles, e sem o burro.
Quando os guardas da fronteira perguntavam o que havia nos cestos, ele dizia: sou contrabandista. Os guardas reviravam os cestos e só encontravam palha.
Tempos depois, Nasrudin encontrou um dos guardas no Egito. Ambos já estavam aposentados. Então o guarda resolveu satisfazer sua curiosidade e perguntou a Nasrudin: o que é que você contrabandeava que nunca conseguimos pegar?
E o Mulá respondeu: "Burros." 


Ação Cartão Portal
O POTE RACHADO
Um carregador de água, em algum lugar da Índia, transportava água de uma fonte até o vilarejo em que ele a vendia. Ele carregava seu fardo em dois potes, presos em uma barra de madeira, de cada lado dos ombros.
O pote da direita estava intacto e sempre chegava cheio ao vilarejo, mas o pote da esquerda perdia metade da água pelo caminho.
Um dia, o pote rachado pediu a palavra e disse ao carregador:
- Estou envergonhado pela minha imperfeição e peço-lhe perdão. Perco a água que deveria guardar. Verdadeiramente, tenho vergonha, eu lhe asseguro.
O carregador olhou para o recipiente e disse-lhe:
- Na nossa próxima viagem, peço que olhe à esquerda do caminho, do seu lado.
- E o que verei? perguntou o pote.
- Você verá flores às quais a água que perdeu, durante todo esse tempo, deu vida.

Criar condições para que os burros (movimento da alegria e afirmação) inadvertidamente atravessem fronteiras, mostrar as flores que desabrocharam e o jardineiro, por algum motivo, nem reparou.

Seguimos!! 

Histórias sobre Seres Invisíveis
E para abrir Portais, imagens do admirado e querido fotógrafo Flavio Moraes:


Participaram dessas ações: Cristiana Ceschi, Cristiano Meirelles, Daniela Biancardi, Emilie Andrade, Fabiane Camargo, Julia Barnabé, Marina Campos, Paulo Federal, Sarah Elisa,Thomas Howard.

Fomos amorosamente fotografados (foto das ações) pela Rosa Morena.

o Jogo de Você . oficina e narração de histórias na mostra Todos os Gêneros de arte e diversidade . Itaú Cultural .



foto: Pedro Napolitano Prata

Em 25 e 26 de Junho | 2016 fomos convidadas a elaborar uma narração de histórias e oficina inspiradas nas questões de gênero.

Assim nasceu a "Oficina da Mistura" e "O jogo de Você: contos ancestrais sobre a fantasia de ser o que se é".

Contamos com a ajuda de pessoas valorosas:

A Cuca Dias que nos convidou para a mostra.
A artista Laura Teixeira que elaborou conosco a oficina.
A musicista Tania Piffer com sua sanfona mágica e a Fabiana Rubira que nos segurou pela mão e nos conduziu para um caminho de descobertas cheio de sentido e afeto.

Abaixo um lindo relato da Fabi sobre todo o processo:

O jogo de você: Contos Ancestrais sobre a Fantasia de ser o que se é

         “Professora, a senhora conhece algum conto de fadas sobre duas princesas ou dois príncipes que se apaixonam?” Mais uma vez essa mesma pergunta me era feita e mais um vez eu dava a resposta sobre como os contos de fadas nos falam de nosso mundo interior, não de nossos papéis sociais... Que os príncipes e as princesas nessas narrativas representam partes que existem em todos os seres humanos e quando se encontram, numa re-união selada pelo Amor, acontece o nosso felizes para sempre, que não está condicionado a uma busca estereotipada de nosso par “romanticamente” idealizado no Mundo dos Desencantados – esse que nossos corpos mortais percorrem e habitam –, mas com uma busca interior de nosso animus por sua anima...
         O olhar de profundo desapontamento daquela linda garota de cabelos bem curtinhos e jeito de moleca, que me escutava com tanta atenção e esperança, calou-me... Lembrei-me, então, de um conto romeno que eu havia narrado certa vez num sarau, há pelo menos uns dez anos... Nele, a filha mais nova de um Rei Mago mostra ao pai o seu valor, diferente daquele que era socialmente esperado dela como mulher, colocando uma armadura, montando um cavalo e se oferecendo para servir ao Imperador. Em determinado momento, é solicitado a essa valente e destemida princesa – travestida de guerreiro, sob o nome de “Príncipe Dragão” – que salve e traga para o Imperador a moça mais linda do mundo, a princesa Iliane, que havia sido raptada por uma ogra. Muitas peripécias depois, devido a uma artimanha da bela Iliane, Dragão ganha o direito à mão dessa princesa e, transformado em homem, por conta de uma “terrível” praga, que acaba se revelando uma verdadeira bênção, casa-se com ela, vira imperador, tem muitos filhos e encontra a felicidade. Emprestei o livro à garota. Ela voltou semanas depois com um brilho nos olhos para me devolvê-lo. O agradecimento chegou a mim em forma de um forte abraço e um delicado aparador de sonhos que ela mesma tinha feito para me dar.
         Cristiana Ceschi testemunhou o desfecho desse fato e quando pediram-lhe que fizesse uma sessão de estórias, no evento Todos os Gêneros: Mostra de Arte e Diversidade, no Itaú Cultural, ela me convidou para fazer parte do processo de criação dessa apresentação. Já era a segunda vez que ela me convidava para algo assim, pontuando que gostaria que eu lhes desse uma orientação a partir de meus conhecimentos mitológicos. Tratava-se de uma busca por um lastro de ancestralidade que permitissem as contadoras do Coletivo As Rutes mergulhar nas águas míticas, de onde as estórias de tradição oral vêm, e desse modo trazer para suas narrações uma conexão autêntica com esse universo atemporal das mitologias. Digo das mitologias, porque a ideia inicial era transitar por diversas culturas e perceber como essa questão dos gêneros eram tratadas.
         Começamos pelo mais óbvio, o mito do Hemafrodita, o filho de Hermes e Afrodite que desperta uma paixão louca na ninfa Salmacis; esta o agarra, enquanto ele se banhava no rio, com tremenda força que ambos acabam unidos, formado um só ser masculino e feminino. Esses seres, deuses que são homens e mulheres, estão presentes em muitas culturas, como por exemplo na mitologia indiana – Ardhanarishvara, ser que nasce da junção perfeita de Annapurna Devi, reencarnação de Pavarti, com Shiva – e na mitologia africana, na figura de Oxumaré – orixá que passa a metade de ano como homem e a outra como mulher.
         Fomos fazendo algumas belas descobertas, como a de algumas tribos indígenas norte-americana que consideravam que havia cinco gêneros básicos e aceitos em sua sociedade: homem-homem, mulher-mulher, homem-mulher, mulher-homem e indefinido. Essa crença foi combatida e suprimida, pela chegada dos ocidentais-brancos-cristãos que impuseram como “certa” apenas uma ideologia binária, exclusiva, de gêneros.
         Para além dos mitos e lendas de seres hermafroditas, trouxe-lhes a narrativa, de origem grega, sobre o sábio Tirésias que viveu como homem e como mulher. Acabei por encontrar uma lenda indiana de um rei que virou mulher – percebendo, desse modo, que no universo mitológico mais ancestral, um ser que reunia em si características masculinas e femininas era visto como sagrado, alguém dotado de uma saberia superior àqueles que eram apenas homens ou mulheres ou apenas haviam vivido suas vidas assim. Depois, fomos enveredando pelos caminhos das estórias das donzelas guerreiras, começamos com o conhecido conto brasileiro Maria Gomes, passamos pelo Romanceiro de Dom Varão e  chegamos a Amba, do Mahabharata. Essa princesa foi desprezada como esposa por duas vezes, morre e nasce novamente como filha de um rei, mas foi nessa reencarnação foi criada como homem. Ela se vestia, lutava e agia como um homem. Todos pensavam que ela era homem. Então, casa-se com uma linda princesa, deparando-se com a impossibilidade de consumar seu casamento conforme se esperava de um noivo em sua noite de núpcias. Sua noiva se assusta com a revelação e foge, ela própria foge e na floresta encontra um sábio que lhe propõe uma troca, sua masculinidade pela feminilidade daquele falso príncipe. O príncipe, agora verdadeiro, volta ao castelo, pede que lhe tragam sua noiva e consuma seu casamento. Torna-se rei – realiza-se –  tem muitos filhos, morre em batalha e seu espírito encontra a Paz.
         Mas não poderíamos nos esquecer de Mulan, a da balada antiga chinesa. Um poema narrativo composto no século VII que nos conta a estória da moça que vai para guerra para livrar seu pai de uma imposição imperial que poderia matá-lo. Ela luta ao lado de seus companheiros por doze anos sem que estes jamais suspeitassem de sua real identidade. Quando finda a guerra, ela volta para casa, veste seu quimono, solta e penteia seus cabelos, guarda sua armadura, deixa de lado o guerreiro e, diante dos olhares de admiração de seus companheiros de batalhas, volta a ser a filha, mostrando-nos que essas transições não são definitivas, nem únicas, nem imutáveis, afinal se é trans, em sua essência, tal mudança implica movimento... Os versos finais do poema ficaram a retumbar em nossas mentes, alvoroçando nossos corações... “Dizem que conhecemos uma lebre segurando-a pelas orelhas / Há sinais para distinguirmos / Suspenso no ar, o macho chutará e se debaterá, enquanto que as fêmeas ficarão paradas, com os olhos a lacrimejar / Mas se ambos estão no chão a pular em liberdade singela, quem será tão sábio para dizer se a lebre é ele ou ela?”
         Nossos encontros de partilhas e orientações foram intensos. Houve um momento que Ártemis e Apolo rodopiavam em torno de mim, como dois astros, Sol e Lua, a me guiarem nessa ciranda de imagens. Se existia uma estória como a do Príncipe Dragão e a do Rei que virou mulher, haveria outras. Essas narrativas, pequenas gotas de um vasto oceano mítico, era importante encontrá-las e contá-las? Por quê? Sim, porque todos nós temos o direito a uma identificação ancestral. Os mitos são narrativas sagradas que nos permitem habitar o mundo, dialogar com o mistério, entender-se parte dele, existir como ser humano. Eu precisava compreender melhor essa necessidade de ouvir e contar uma narrativa antiga sobre duas princesas ou dois príncipes apaixonados, pois aquelas pessoas que me pediam isso estavam cansadas daqueles mesmos contos, que na verdade, na maioria das vezes, foram alterados para que uma determinada mensagem fosse passada ou um princípio moral reforçado. O que elas reclamavam – e eu não havia percebido ainda –  era por seu direito mítico de existir.
         “Se você só fizer o que sabe, não vai ser nada além do que já é” – acabei de ver a adorável animação Kung Fu Panda 3, por indicação da Cris, e não resisti colocar esse ensinamento do mestre Shifu aqui. Como contadora, digo sempre que a luz dos olhos de quem me ouve é que me guia. São meus candeeiros, meus faróis. Os olhos daquela garota, à procura de contos de fadas nos quais se sentisse representada, instigaram-me a ir além das minhas certezas. Assim como o convite para esse trabalho me levou para além da minha assumida má vontade com as sessões de estórias com temas encomendados... Levaram-me além... Levaram-me a transpor, transitar, transformar, transcender... Então, vi nascer O jogo de você, uma criação coletiva na qual as contadoras Sarah Elisa, Emilie Andrade e Cristiana Ceschi, muito bem acompanhadas da musicista e cantora Tania Piffer, foram se perdendo e se encontrando em meio às narrativas que fui lhes apresentando. Foram pesquisando e experimentando contos, formas de contar, sequências, transições e possibilidades várias. Vejo nesse processo delas o próprio jogo mencionado no título da apresentação. Elas o vivenciaram tão verdadeiramente, que não havia como não proporcionarem essa experiência de natureza brincante ao seu público.     
         Contar e ouvir estórias é uma brincadeira maravilhosa muito antiga que nos leva a viver, para além do real, os sonhos sonhados pelos que vieram antes de nós e os sonhos que serão sonhados pelos que vierem depois de nós. Nesse momento poético de criação compartilhada, libertos das amarras das lógicas e imposições sociais, somos príncipes, princesas, princesas que viram príncipes, reis, rainhas, reis que viram mulher de lenhador, cavalos falantes, guerreiros, eremitas, sábios, bruxas, fadas, ogras, uma criança em busca de seu próprio nome, ou seja, adentramos nesse jogo de possibilidades sem fim, no qual experimentando e sonhando o que podemos ser, acabamos por descobrir e nos tornar, a cada passo de nosso caminho, um pouco do muito que realmente somos.

. a Botica de Histórias no Circuito SESC de Artes 2016 .





Nos encontramos na casa da Cris (Cristiana Ceschi) para ela nos passar as últimas coordenadas a respeito do Circuito Sesc de Artes. Era noite, poucos dias antes de viajarmos. Ao lado da Dedé (Débora Kikuti) conversando sobre o que estava por vir, senti subitamente uma alegria no coração. Aquele tipo de alegria que anuncia o gosto de coisa boa - “Bons presságios de uma bela aventura...”, era isso que meu coração estava tentando me contar.
Partimos para nossa jornada! Duas contadoras de histórias representando o Coletivo As Rutes. Nossa missão: levar a “Botica de Histórias” por 9 cidades do interior, encontrando as pessoas nas ruas, nas praças e encarando todo o desafio que a arte na rua pode trazer. Mas o melhor ainda estava por vir...
Entramos num portal encantado junto com artistas companheiros de viagens que rapidamente viraram nossos amigos, nossa família durante a estrada.
Nossa trupe era composta por letristas designers, educadores, malabaristas, bailarinos, atores, músicos e nós, contadoras de histórias. Éramos cuidados pelo Leo, programador do SESC, mas que na verdade era nosso anjo da guarda.
Os dias durante o circuito se deram da seguinte maneira: Chegávamos na praça da cidade; arrumávamos nossa bandeja com os vidrinhos contendo as histórias que remediariam as “pontas soltas” que encontrássemos naquele dia; uma respirada profunda e entrávamos em ação!
Posso imaginar o impacto que nossas figuras causou nas pessoas que cruzaram nosso caminho... Pense você comigo: você está numa praça, fim de tarde e vê duas mulheres com um vestido rodado com uma gola azul claro (perguntaram se éramos elfas, fadas, ciganas, bruxas, e por aí vai...) com um delicado instrumento similar a uma bolha de sabão na mão e uma bandeja cheia de vidrinhos, abertas para uma boa conversa e oferecendo... histórias!!!
Em cada lugar, em cada encontro houve uma surpresa. No começo os olhares eram de curiosidade e até uma certa desconfiança do que estava por vir, até que de repente... acontecia a entrega, o encontro! Do encontro com as pessoas a partir de uma conversa breve as histórias compareciam, querendo ser contadas ou por mim ou por minha companheira. As histórias muitas vezes chegavam para ser contadas a galope, quase sem pedir licença! Às vezes muitas histórias ao mesmo tempo queriam ser contadas e tínhamos que despertar uma escuta profunda e serena, para que fosse revelada qual seria a história ideal para aquele momento, para aquele grupo de pessoas, para aquela luz do sol, para aquela brisa que surgia docemente no ar.
As lembranças são muitas, e os acontecimentos fantásticos também, de modo que que escolhi dois para ilustrar um pouco da magia que aconteceu em cada encontro...
Lembro quando estávamos numa praça em Barueri. Era quente, com um sol escaldante, e eu contava uma história para um grupo grande, cheio de crianças e adultos próximo a um lago. Estava no momento da história em que disse a frase “Quando na floresta de repente surgiu...”. Nessa mesma hora surgia na praça duas gansas enormes se aproximando do grupo. Foi uma dispersão só, as pessoas com medo saíram correndo e eu e a Dedé ficamos paradinhas, assistindo o que estava acontecendo... As gansas deram uma volta em torno de nós duas, nos olharam, como se fizessem um comprimento, e saíram. Nesta altura pensamos que já tínhamos perdido nosso público, quando para nossa surpresa rapidamente as pessoas voltaram para escutar e retomei a história de onde paramos. Sentimos como se tivéssemos presenciado a graça do mundo encantado se materializando para dar um alô através daquela duas gansas...
Outra lembrança que me emociona foi do dia em que fomos com a Botica de Histórias na cidade de Itapevi. Neste dia, a Débora contou uma história sobre uma cidade onde todos carregavam pedras. Na jornada da história, acontecia uma transformação: as pessoas paravam de carregar as pedras, aprendendo a viver uma vida leve. Lembro do semblante de um senhor que ouvindo a história foi tirando seu boné, num gesto humilde e fazendo uma reverência para nós olhou fundo em nossos olhos, olhar de quem é cumplice. Seu olhar nos contou que ele mesmo estava mais leve depois de ouvir a história e agradeceu o momento. Quando nos despedimos, dois rapazes nos chamaram, dizendo que Itapevi significava “Rio de Pedras Chatas”. Quando os rapazes viram nossa surpresa ao constatar tamanha sincronicidade os quatro se olharam, sorriram e em silêncio confirmamos a magia que havia acabado de acontecer.
No final da jornada, ficou a confirmação de que as histórias estiveram conosco o tempo todo. Juntas, levamos as histórias para viajar, para serem contadas a quem fosse importante escutá-las. Nada melhor do que caminhar em companhia de boas histórias e humildemente deixar que elas passem através de nós.
Assim, a viagem terminou no tempo espaço, mas está viva dentro dos nossos corações com uma boa colheita: amigos queridos, companheiras contadoras de histórias especiais, e o prazer que dá quando se está a serviço de uma arte tão antiga e tão essencial.

Viva a Botica de Histórias!

Relato de Sarah Elisa sobre a temporada do Coletivo As Rutes no Circuito Sesc de Artes 2016.

. Sarau das Rutes . o princípio feminino .


2015 foi o ano da denúncia feminina.
Ano das hashtags que levantaram um lamaçal nas redes sociais... #primeiroassedio #meuamigosecreto #meucorpominhasregras, entre outras.

Ser mulher, se tornar mulher é complexo, cansativo, injusto.
Mas e a parte boa? o que pode e merece ser lembrado e evidenciado como a essência e maravilha de ser mulher, do feminino para além das questões de gênero?

Convidamos artistas para colocar luz no princípio feminino presente em formas, espaços, objetos, manifestações da natureza, na fecundidade, na intuição e na proteção, na terra, em um lago, no redondo, na flor, na ternura. 

O resultado foi uma noite iluminada. 

Agradecemos: Cristiano Meirelles; Dinah Feldman; Fabio Malavoglia; Fabio Rosa; Paulo Federal e Thomas Howard.

E o , que nos acolheu de olhos fechados, com muito carinho.




. Quer Voar? workshop para a Rede Ubuntu .




Um Workshop com "os Nós" da Rede Ubuntu para vivenciar o sentido de estar em rede aliado ao propósito pessoal de cada um: sonhos de futuro, voos.

Mas antes de voar...Para que voar? Para onde voar? Qual a melhor asa para você?

A rede como proteção e trampolim.

Foi uma manhã de saltos, laços e enredos.






Facilitadora: Cristiana Ceschi
Foto: Fabio Tadeu
Local: Projeto âncora

. Cartão Portal . Um cartão de memória .


"Cartão Portal" é uma ação performática + oficina que busca nas imagens um sentido de PORTAL: lugar para onde somos lançados e convidados a ver a paisagem subjetivamente, alargada por nosso mundo interno, não mais como ela é oficialmente - cartões postais convencionais - mas como ela poderia ser.

O mundo de fora começa a dar espaço para o mundo de dentro



Nossa busca se direciona a um portal da memória - lugar íntimo e intransferível que marca positivamente a trajetória de vida dos participantes. Um lugar luminoso, cheio de afeto, muitas vezes da infância, onde o sujeito pode passear amorosamente em suas recordações.


"A paixão pelo lugar de onde viemos, pela origem, pelo solo que é matéria do que somos feitos e que é transformado por nós – a topofilia – de Barchelard -  “ paixão pelo lugar”.  O sentimento intenso de pertença e | ou frequentação amorosa a um espaço, região, território ao qual o homem  se integra em uma concepção mais harmônica – o que não quer dizer livre de conflitos" (Marcos Ferreira Santos)








concepção e direção: AS RUTES.
cartões design de: Fernando de Almeida.
performers: Cristiana Ceschi, Sarah Elisa, Marina Campos e Monica Malheiros
foto: Dalmir Ribeiro
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em parceria com a equipe de turismo social do SESC Jundiaí e os alunos do curso de formação para contadores de histórias na Biblioteca Raimundo de Menezes.

. Botica de Histórias .

nos apresentamos como (re) mediadores dos destinos humanos.
levamos conosco uma BOTICA DE HISTÓRIAS.
em cada frasco uma história, uma canção ou um poema perfeitos para você.

mas... 
antes precisamos saber... 

onde dói?

concepção e direção: AS RUTES.
desenhos guardados nos frascos: Fernando de Almeida.
performers: Cristiana Ceschi, Cristiano Meirelles, Sarah Elisa.
foto: Alexandre Paulain e
Fernando Antônio.

No Espaço de Leitura do Parque da Água Branca

. Qual é a sua virada? .

Uma AÇÃO ADIVINHATÓRIA E NARRATIVA na Virada Cultural 2014 (SESC CONSOLAÇÃO) com o intuito de facilitar, abrir espaço, desbloquear a "VIRADA"  de mesa ou de jogo, o pulo do gato, a mudança de rota dos participantes.
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FOTOS: Xica Lima
DIREÇÃO: Cristiana Ceschi.
PERFORMERS CONVIDADAS: Emilie Andrade e Sarah Elisa.

. Leio Mãos .

" - Eu acho que nós, bois, - ... - assim como os cachorros, as pedras, as árvores, somos pessoas soltas, com beiradas, começo e fim. O homem, não: o homem pode se ajuntar com as coisas, se encostar nelas, crescer, mudar de forma e de jeito... O homem tem partes mágicas...são as mãos...eu sei..."Guimarães Rosa "Conversa com Bois”.


Intervenção performática realizada no SESC Consolação e no Espaço de Leitura do Parque da água branca que tem como mote os sonhos de futuro revelados pelos caminhos traçados como desejos na palma da mão. 

. Foi o Acaso ou o Destino que nos juntou? .


Ação performática na madrugada da Virada Cultural 2013 no SESC Belenzinho.

As pesquisadoras dos acasos e destinos humanos orientam os participantes com uma bússola que aponta para o acaso ou o destino, o princípio orientador escolhido na vida de cada um. 


DIREÇÃO E CONCEPÇÃO: Cristiana Ceschi.

PERFORMER CONVIDADA: Sarah Elisa.
FOTOGRAFIA: Pedro Napolitano Prata.

Cielo di San Carlo na X Bienal de Arquitetura de São Paulo, outubro 2013.


Com o título "Cidade: modos de fazer, modos de usar, modos de agir", A X Bienal de Arquitetura de São Paulo propõe a reflexão sobre as dinâmicas que constroem e reconstroem a cidade em seu cotidiano.




O Cavalo Mágico { em processo }

Pesquisa de linguagem em processo: O Cavalo Mágico

. Intervenção na cidade + Animação +  Arte Narrativa .

Apresentação no encontro internacional de contadores de histórias Boca do Céu 2012, com a participação de Pedro Ribeiro e Julia Grillo.